quinta-feira, 14 de julho de 2016

Conheça as mulheres que ajudaram a NASA a alcançar as estrelas



O laboratório de propulsão a jato da NASA (JPL) tem uma longa tradição na construção de foguetes e de exploração espacial, desde a criação dos primeiros mísseis e naves, até a chegada na lua e a navegação remota de rovers em Marte. Por trás de todos os homens proeminentes que lideraram tais programas existiu um grupo de mulheres pouco conhecidas.

Agora as mulheres esquecidas do JPL têm o seu próprio livro, Rise of the Rocket Girls: The Women Who Propelled Us, From Missiles to the Moon to Mars (algo como “A ascensão das garotas-foguete: as mulheres que nos propulsionaram, de mísseis à lua e à Marte”), graças à microbiologista e escritora Nathalia Holt. Recrutadas nas décadas de 40 e 50, essas gênias da matemática desafiaram os papéis sociais de gênero da época para trabalharem como “computadores” humanos. Com apenas lápis, papel e fórmulas, era a responsabilidade delas fazerem os cálculos que possibilitaram todas as missões espaciais da época, da trajetória de foguetes ao sistema de satélites. O Gizmodo conversou com Holt para aprender mais sobre como ela deu vida à essas histórias notáveis.

Abaixo, os principais trechos da conversa com a autora do livro:

Gizmodo: O que te inspirou a escrever um livro sobre essas mulheres?

Nathalia Holt: Foi uma coincidência aleatória. Estávamos tentando escolher um nome para a nossa filha quando descobrimos Eleanor Francis Helin – uma astrônoma incrível [que fazia parte do programa de Near-Earth-Tracking do JPL] que descobriu muitos cometas e meteoros. Ela faleceu em 2009. Eu nunca a conheci, mas não conseguia parar de pensar nela. Foi por causa dela que eu fiquei sabendo sobre as mulheres “computadores” [do JPL]. Fiquei obcecada por elas. Inicialmente não tinha pensado em escrever um livro, eu só queria aprender mais. Eu tive muita sorte em ter conseguido achar tantas dessas mulheres – existem pouquíssimos registros nos arquivos.

Algo mágico aconteceu lá, mas essas mulheres não receberam o reconhecimento que merecem. No aniversário de 50 anos do Explorer I, as mulheres que faziam parte do controle de missão da época nem foram convidadas para a comemoração. Então, em 2013, organizei um encontro e elas vieram de diversas partes dos Estados Unidos e revisitaram os prédios em que trabalharam e o controle de missão dos quais tinham tantas boas lembranças. Foi bom ver as suas contribuições sendo honradas.


Gizmodo: Como que você conseguiu achar elas? Não deve ter sido fácil.

Holt: Foi muito difícil. Os arquivos da JPL tinham ótimas fotos mas eles não sabiam quem eram as pessoas nas fotos e tinham poucas informações sobre elas. Acabei ligando para uma quantidade ridícula de pessoas. Eu brinco que se o seu nome for Barbara, Virginia ou Helen é muito provável que eu tenha te ligado. Eu devo ter ligado para umas 50 Barbara Paulsons. Foi tão emocionante quando eu encontrei a pessoa certa. Quando eu encontrei algumas integrantes chave do grupo, as peças de encaixaram porque elas são amigas até hoje.

Gizmodo: Essa foi uma época única para mulheres na história dos Estados Unidos, com tantas mulheres começando a trabalhar enquanto os homens lutavam no exterior. Aparentemente a NASA não foi exceção.

Holt: Sim. Era possível enxergar isso acontecendo nos centros da NASA em todo o país: mulheres ocupando vagas que não teriam conseguido em outras circunstâncias, graças a competência que tinham na matemática. Outras mulheres em centros da NASA acabaram perdendo seus empregos quando [computadores] IBMs surgiram. O que foi diferente na JPL foi que elas não deixaram os cargos quando os homens voltaram da guerra. Tiveram longas carreiras, uma delas ainda trabalha lá e é a funcionária da NASA com o maior tempo de serviço, a Sue Finley. Ela faz 80 anos esse ano e continua trabalhando na missão Juno para Jupiter. Ela não quer se aposentar até a missão for completada. Mesmo depois que isso acontecer, não tenho certeza se ela vai se aposentar, ela ama trabalhar lá.

Gizmodo: Uma das histórias mais impactantes no livro é a da Janez Lawson, a única mulher negra do grupo em tempos em que até homens negros penavam em encontrar empregos como cientistas e engenheiros.

Holt: [Lawson] era uma jovem incrivelmente inteligente que tinha se formado na Universidade da Califórnia, com um diploma em engenharia química. Quando chegou na JPL houveram questionamentos por ela ser a primeira negra que contratavam para uma vaga técnica no laboratório, se perguntavam se ela se encaixaria. Macie Roberts era a supervisora do grupo e a apoiou. Roberts queria garantir que a sua educação e conhecimento não fossem desperdiçados, então Lawson foi uma das únicas mulheres que participou do treinamento da IBM de computação. Infelizmente ela faleceu antes de eu conseguir falar com ela, mas consegui localizar alguns de seus amigos e familiares.

Com certeza ela tinha que lidar com mais desafios do que as outras mulheres, não só por causa da cor de sua pele, mas também pela localização de onde morava. Ela viajava diariamente de Los Angeles até a JPL, uma viagem longa considerando as condições das estradas na época. Ela veio a ter uma incrível carreira como engenheira química.


Seção de computação da JPL, em 1953. Cortesia da NASA/JPL-Caltech

Gizmodo: Eu presumo que esse grupo de mulheres enfrentou muitas dificuldades que são relevantes até hoje, desde o assédio sexual e discriminação, a dificuldade em equilibrar o trabalho e a vida familiar até preconceitos sexistas. Como elas lidaram com tudo isso?

Holt: Existem histórias de assédio sexual no livro – a engenharia aeronáutica é uma área muito dominada por homens até hoje – mas elas eram um grupo forte de mulheres com uma mulher supervisora. Acredito que tenham cuidado umas das outras de uma forma incrível. E os homens do laboratório vieram a aceitá-las como colegas. Alguns engenheiros até as convidaram para participarem de estudos e as incluíram como co-autoras em suas publicações. Na época isso não era nem um pouco comum e realmente teve uma grande influência nas suas perspectivas profissionais.

A maioria das mulheres com quem falei tem opiniões fortes sobre a importância de serem mentoras para as próximas gerações. Fiquei especialmente impressionada com o caso de Helen Ling, que supervisionou o grupo nos últimos anos. Ela fez questão de trazer mulheres para a equipe que não tinham a educação necessária para serem contratadas como engenheiras. Ela as incentivou a cursarem aulas noturnas e assim foram promovidas e se tornarem engenheiras após se formarem. No encontro, muitas mulheres agradeceram Ling por tudo o que ela tinha feito por elas.

Gizmodo: O seu livro contém uma frase da astronauta pioneira Sally Ride: “Eu não vim para a NASA para fazer história.” Por que você escolheu incluir no livro?

Holt: Durante a década de 60, a maioria das mulheres não trabalhava fora de casa. O que me comove sobre essa frase é que essas mulheres estavam lá porque amavam o que faziam. Elas eram muito habilidosas, muito boas em matemática, mas eram um grupo humilde de mulheres que amavam fazer parte das missões da NASA. Elas não foram à NASA para fazerem história.


As “rocket girls” do JPL em 2013. Crédito: Nathalia Holt.

Tradução por Mariana Siqueira.

Foto do topo: as mulheres computadores do JPL durante o trabalho em 1955. Cortesia da NASA/JPL-Caltech

FONTE: GIZMODO BRASIL


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